Campinas sitiada

6 de fevereiro de 2016

Não é normal helicóptero sobrevoando o distrito de Barão Geraldo, blitz confiscando água e milho de vendedores ambulantes, bares recebendo ordens de fechar suas portas as 21h00 em plena sexta-feira, ainda mais de carnaval. Não é normal impedir que jovens se reúnam no centro de Barão para curtir o carnaval ouvindo funk, mandar jovens descer do ônibus para revistá-los, sem nenhuma justificativa plausível. Não é normal barreira policial parando carros e motos dirigidos, “coincidentemente” por negros. Barão Geraldo ontem esteve em estado de sítio, retornamos aos tempos tenebrosos da Ditadura. Nosso distrito viveu o que as periferias desse país vivem desde sempre.

A ação da Polícia Militar ontem foi ostensiva, para causar medo, pavor, pânico. Conseguiram fazer com que cidadãos voltassem para suas casas, que alguns nem delas saíssem. Cadê este contingente para prevenir estupros no distrito? Assaltos em casas e repúblicas? Roubos de carros? Não é normal, não podemos aceitar como normal e até legal a militarização de nossas cidades, hoje manifestada no carnaval.

 Armas de grosso calibre, bombas, balas de borracha, gás de pimenta não são os melhores métodos para lidar com multidões. Usar isso para vigiar ou mesmo dispersar foliões, frente a uma festa popular, no espaço público, não pode ser considerado “ação necessária”, “método eficiente”. Devemos compreendê-la naquilo que foi: abuso de poder, uso desproporcional da autoridade, com intenção evidente de coação e medo.

Me parece que é uma ação clara do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, que orienta a PM a tratar o povo como inimigo, suspeito em potencial, o “outro”, que agora ousou ocupar o espaço público depois das manifestações de junho de 2013. Se não percebermos esta ação beligerante e belicosa da PM, que faz isso com ação, ou ao menos omissão de seu chefe, seremos irresponsáveis com as conquistas democráticas. É a tentação autoritária que sobrevive num contexto institucional que não acabou com os aparatos repressores do “fim” da Ditadura.

Lembremos que tudo isso começou com a ação da administração do prefeito Jonas que era contra que ocorresse o carnaval na cidade. Que não teve controle sobre a Guarda Municipal. Muito pelo contrário, o governo criou trâmites, segundo eles, simples e favoráveis, para legitimar, ao longo do tempo, as condições que inviabilizariam o carnaval. E se os blocos tivessem aceitado, gastariam mais tempo cuidando da burocracia do que fazendo arte, potencializando a manifestação popular. Como consequência? No futuro, o governo diria: “nunca proibimos o carnaval, o povo que parou de realizá-lo”. Não era apenas ilegal a exigência do alvará, a cobrança de taxas pela ocupação do espaço público. É uma clara visão de cidade, gentrificada, morta, sem povo nas ruas, submetida a ordem sem contestação, militarizada.

 A PM tem que ser controlada e pautada pela população, são servidores públicos e assim devem atuar. Deixar que ela abuse do poder, avance contra direitos constitucionais é gravíssimo, porque o limite se afrouxa e, cada vez mais, atenta-se contra as liberdades democráticas conquistadas as duras penas. Enquanto a repressão policial estava só contra estudantes que lutavam contra o fechamento de suas escolas, contra jovens que lutavam contra o aumento da passagem, contra professores que lutavam por dignidade para lecionar ou escondida nas periferias, parecia não mobilizar a opinião pública. Mas agora chegou no carnaval. Agora, vamos nos manifestar? Não podemos aceitar recuos nas conquistas democráticas, de ocupar o espaço público, de expressar nossas opiniões, sejam elas carnavalescas, religiosas ou políticas. O que está em jogo não é “apenas” nosso direito ao carnaval, é nosso direito sobre a cidade, que queremos viva, sem medo, tendo todo seu potencial democrático sendo utilizado, pulsando afetos e encontros. Não esqueçamos que “paz sem voz, não é paz, é medo”.

Marcela Moreira

Cientista social, professora e coordenadora do Instituto Voz Ativa