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  • COP30: Oportunidades e saídas sem o USA a partir da Agroecologia, Economia Solidária e Regeneração Climática

    COP30: Oportunidades e saídas sem o USA a partir da Agroecologia, Economia Solidária e Regeneração Climática

    A realização da COP30 em Belém do Pará, em 2025, carrega um significado histórico: pela primeira vez uma Conferência do Clima da ONU será sediada na Amazônia, território símbolo da crise climática e, ao mesmo tempo, guardião de possibilidades de futuro. Porém, a experiência acumulada das últimas conferências mostra um obstáculo recorrente: a dependência das decisões das grandes potências, em especial dos Estados Unidos. Porém, esta COP30 terá um diferencial: sua ausência. Os EUA sempre tiveram muito peso, travaram acordos mais ambiciosos ou transformaram as negociações em arenas de interesse corporativo, vinculadas a petróleo, agronegócio e mercado financeiro.

    Esta COP30 traz desafios de partida. Os EUA mudaram a política. É um governo de ultradireita que não está preocupado com nenhum acordo internacional, a menos que seja muito benéfico a eles e que fortaleça e recupere sua hegemonia econômica e financeira. Com esta orientação, o melhor desfecho é que não estejam mesmo na COP30, pois seriam um elemento de restrição e perturbação dos diálogos. Sendo assim, abre-se a possibilidade de novos arranjos globais, parcerias diferenciadas sem o hegemonismo americano. No entanto, aumentam os desafios e responsabilidades que possibilitam construir articulações fortes das nações e dos povos do Sul Global. Assim, podemos propor, aprovar e financiar caminhos próprios para a transição climática e autodeterminação das nações, sem as restrições e chantagens das grandes potências imperialistas.

    Nesta COP30 e neste cenário, o movimento sindical pode e deve ter um papel importante. Na sua essência, é um movimento de resistência e de luta por direitos, mas ele pode ser mais que isso. Pode influenciar e disputar como a sociedade se organizará para efetivar a transição climática que interessa à classe trabalhadora.

    Surgem respostas que estão sendo construídas coletivamente. Um exemplo de construção é a realizada pelo Sindicato Químicos Unificados que, a partir de definições nos seus fóruns, entendeu que é preciso dar uma singela contribuição. O intuito é se somar e construir um movimento da classe que busca combater o capitalismo, que leva o povo à barbárie e o planeta à destruição. Nós não podemos apenas reagir dentro deste sistema autodestrutivo.

    Vivemos uma crise mundial. Ondas de calor, mudanças climáticas, queda na produção de alimentos. A forma tradicional de produção de alimentos acaba necessitando de mais adubos químicos, agrotóxicos e água. Com a escassez e dificuldade, ocorre o aumento da fome e sofrimento humano.

    O capital e as grandes corporações reagem reafirmando o que já sabemos: eles não têm pátria, não têm cara, não têm continente. Necessitam incessantemente de mais: mais-valia, lucro, acumulação, destruição dos menores e concentração de riquezas, seja onde for.

    Nesse cenário, nossas definições são contribuir com a agroecologia e com a economia solidária, combinadas com sistemas e tecnologias que levem à geração de renda, negócios sociais e regeneração climática.

    Ou seja, eixos estratégicos para construir alternativas de baixo carbono, com justiça social, protagonismo popular, sistema autogestionário e uma nova consciência social.

     

    Agroecologia como resposta à crise e regeneração climática

     

    A agroecologia vai além de um modelo agrícola: trata-se de uma proposta civilizatória que integra produção de alimentos, preservação da biodiversidade e fortalecimento das comunidades. Nas negociações climáticas, muitas vezes a agricultura é vista apenas como emissora de gases de efeito estufa. No entanto, experiências de camponeses, povos indígenas e comunidades tradicionais mostram que é possível produzir alimentos saudáveis regenerando solos, florestas e ciclos da água, gerando renda e partilhando tudo que é produzido coletivamente, sem a acumulação capitalista e construindo meios de produção coletivos.

    Se os EUA e a Europa apostam em pacotes tecnológicos controlados por corporações, a América Latina, Caribe e Ásia podem apresentar a agroecologia como resposta sistêmica: ela sequestra carbono nos solos, promove soberania alimentar e reduz a dependência de agrotóxicos e combustíveis fósseis. Tudo isso gera renda, possibilita uma economia solidária e uma nova cadeia produtiva solidária. Na COP30, defender a agroecologia significa também garantir espaço para o protagonismo das populações amazônicas, da agricultura familiar, do associativismo e cooperativismo, que preservam os recursos naturais e a floresta por séculos.

    Devemos estabelecer um processo negocial de fato com quem produz alimentos no Brasil e no mundo — em vez de commodities, que é o agronegócio. Devemos confluir para construir um fundo global que incentive a agricultura familiar, que gere trabalho e renda, e que garanta a produção de alimentos orgânicos e agroecológicos baseada no cooperativismo, associativismo e economia solidária.

     

    Economia Solidária e novas finanças climáticas

     

    Outro ponto crucial é romper com a lógica dos mercados de carbono dominados pelo sistema financeiro global. A chamada “financeirização da natureza”, ou passe livre para poluir com compras de créditos de carbono, é promovida por bancos de Wall Street e fundos de investimento, que viram na crise climática uma oportunidade de ganhar mais dinheiro, sem mudar a estrutura produtiva e a consciência social.

    A economia solidária oferece uma alternativa real. Por meio de cooperativas, associações, bancos comunitários e moedas sociais, é possível criar mecanismos de financiamento climático descentralizados, voltados às comunidades e não às grandes corporações. Esse modelo não só democratiza os recursos, como garante que a transição seja de fato solidária e justa, gerando trabalho e renda para quem mais sofre com os impactos das crises sejam elas econômicas, sociais e climáticas, etc.

    Na COP30, os países latino-americanos, caribenhos e africanos podem propor a criação de um Fundo Popular para a Transição Climática, abastecido não apenas por governos, mas também por redes de solidariedade, comércio justo e finanças éticas. Essa seria uma maneira de quebrar a dependência histórica dos compromissos financeiros não cumpridos pelas potências do Norte, em especial os EUA.

    Precisamos de regeneração climática. A sustentabilidade não dá mais conta, dado o nível de destruição. Precisamos de um NOVO PACTO GLOBAL de neutralidade de carbono, economia circular e logística reversa em todos os setores de produção. Um pacto que crie consciência social sobre a necessidade de reduzir o consumo e construir bens duráveis, banir a obsolescência programada e eliminar os valores de não uso dos produtos.

    Não podemos mais nos enganar. Chega de debates climáticos internacionais e locais que se limitam à “neutralidade de carbono”, uma meta que legitima compensações falsas, como plantar monoculturas de eucalipto para justificar emissões contínuas de petróleo e carvão. A nossa perspectiva e a da COP30 têm que ir além. Devem colocar no centro a ideia de regeneração climática e a redução do consumo, com uma mudança no padrão de vida. O slogan deve ser: “consumir menos, trabalhar menos e viver mais”.

    Regenerar significa restaurar ecossistemas, recuperar solos degradados, revitalizar rios e promover modos de vida que ampliem a resiliência comunitária frente às mudanças do clima. Não se trata apenas de zerar emissões, mas de reparar danos históricos causados por séculos de exploração colonial e extrativismo predatório.

    Nesse sentido, a Amazônia pode ser o espaço simbólico e prático para lançar uma agenda da regeneração, articulando saberes científicos e tradicionais. Povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos devem ser reconhecidos como guardiões desse processo, não como “populações vulneráveis”, mas como sujeitos políticos e parceiros estratégicos.

     

    Soberania dos Povos e integração regional

     

    Para que essas saídas se concretizem, é necessário fortalecer tanto as articulações oficiais quanto as articulações dos povos. A América Latina, via CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) e OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), pode formar um bloco de negociação que retire os EUA do centro e coloque o bioma amazônico como eixo comum. Ao mesmo tempo, movimentos sociais, movimento sindical, movimentos de juventudes, movimentos ambientais e climáticos e redes agroecológicas devem ocupar os espaços preponderantes, paralelos e articulados à COP30, construindo uma Agenda dos Povos, da economia solidária e que de fato vise à regeneração do clima.

    Essa articulação popular garante que a agroecologia, a economia solidária e a regeneração não fiquem apenas como retórica, mas se tornem compromissos reais assumidos por governos, com protagonismo popular e monitorados pela sociedade.

    A COP30 em Belém do Pará não pode repetir a lógica das conferências anteriores, em que os interesses das potências determinam os rumos do planeta.

    Ao contrário, deve ser um marco da virada: uma COP do Sul Global, da Amazônia e dos povos, que apresente ao mundo caminhos de saída sem a centralidade dos EUA.

    A partir da agroecologia, da economia solidária e da regeneração climática, é possível construir uma transição solidária e justa, que enfrente simultaneamente as crises ambiental, social e econômica. Se a Amazônia for reconhecida não como fronteira de exploração, mas como coração de um novo paradigma, a COP30 poderá inaugurar uma era em que a vida — e não o lucro — seja o centro das decisões climáticas.

     

    Sanitarista Ambiental, da Secretaria de Economia Solidária e Agroecologia da Intersindical, secretário geral da Fetquim – Federação do Ramo Químico de São Paulo, da coordenação do Sindicato Químicos Unificados e Rede Livres Agroecologia.

     

    Publicação original em: REVISTA LINHA VERMELHA

  • Experiência sindicato e agroecologia

    Experiência sindicato e agroecologia

    Estivemos com a professora Larissa Bombardi em um bate-papo sobre agroecologia, o lançamento do livro e as perspectivas no Brasil. Falar de projeto como o Livres, que vem de uma história do Sindicato Químicos Unificados é muito animador e mostra a importância do movimento da sociedade, movimentos sociais e sindicais. Confira.

     

  • Larissa Bombardi na Unicamp

    Larissa Bombardi na Unicamp

    Estivemos no lançamento do livro “Agrotóxicos e Colonialismo Químico” da Larissa Mies Bombardi na AdUnicamp na semana passada. A professora e pesquisadora volta ao Brasil após 3 anos de exílio para divulgar mais uma pesquisa sobre o uso de agrotóxicos no país. E uma coisa é certa: a situação do Brasil frente à União Europeia é sub-humana quando se discutem os agrotóxicos. Confira.

  • Inauguramos nosso box na Ceasa Campinas!

    Inauguramos nosso box na Ceasa Campinas!

    Inauguramos nosso box na Ceasa Campinas! Uma parceria Rede Livres Agroecologia e ANC, nasceu mais um projeto da agroecologia e economia solidária. Recebemos amigos, apoiadores.
    Articulamos em um só local os produtores, revendedores e consumidores finais de alimentos saudáveis, orgânicos e agroecológicos.
    Nossa estrutura está organizada para ofertar para a região Metropolitana de Campinas e o Sul de Minas os melhores produtos orgânicos e agroecológicos, da agricultura familiar e da Economia Solidária.
    Venha nos conhecer no Mercado de Flores na Ceasa Campinas, Box U01.

  • Inauguração Central de Alimentos Orgânicos – Rede Livres

    Inauguração Central de Alimentos Orgânicos – Rede Livres

    Relembrando a nossa inauguração que aconteceu no sábado, dia 8 de junho. O primeiro box de alimentos orgânicos e agroecológicos da Ceasa Campinas. E tivemos a presença de parceiros incríveis. Confira!

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    VENHA CONHECER A CRESOL!

    VENHA CONHECER A CRESOL!
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  • União Europeia confirma proibição de pesticidas prejudiciais às abelhas

    União Europeia confirma proibição de pesticidas prejudiciais às abelhas

    No início de maio, a Suprema Corte da União Europeia manteve a proibição de três pesticidas em algumas culturas (milho, canola e cereais). A decisão confirma a proibição de um tribunal europeu em 2018, que a Bayer tentou anular com um recurso apresentado pela empresa.

    A proibição envolve três substâncias ativas – imidacloprida desenvolvida pela Bayer CropScience, clotianidina desenvolvida pela Takeda Chemical Industries e Bayer CropScience, e tiametoxam da Syngenta. As substâncias são conhecidas como neonicotinoides e estão ligadas à morte de abelhas.

    Um porta-voz da Bayer defendeu a segurança dos produtos, que continuam a ser usados ​​em outros países, como o Brasil. A empresa afirma que não existem comprovações científicas que justifiquem as restrições.

    Apesar de proibidas, estas substâncias tiveram o seu uso emergencial autorizado 206 vezes na União Europeia, entre os anos de 2013 e 2019. Auditores afirmaram que, em 2020, o uso de pesticidas, mesmo sendo ilegal, levou à morte em massa das polinizadoras.

    A decisão da Suprema Corte foi pautada justamente em relatos de perdas de colônias de abelhas, ligadas ao mau uso dos pesticidas. “A decisão mostra que a proteção da natureza e da saúde das pessoas tem precedência sobre os estreitos interesses econômicos de multinacionais poderosas”, disse a estrategista jurídica do Greenpeace Andrea Carta.

    Para proteger as abelhas, a União Europeia propõe a redução do uso de pesticidas químicos pela em 50% e do uso de fertilizantes em 20% até 2030.

     

    BRASIL

    Segundo relatório do Greenpeace, o Brasil é o terceiro maior consumidor de pesticidas do mundo e utiliza muitas substâncias que não são permitidas na UE. Em 2019, 44% das substâncias aprovadas no Brasil não eram liberadas na UE. Além disso, 70% dos pesticidas usados no Brasil são classificados como altamente perigosos.

    “Em abril de 2021, 3.231 pesticidas eram aprovados no Brasil. O governo Bolsonaro emitiu o recorde de 1.172 autorizações em apenas 845 dias de governo, sendo responsável por 36% de todos os pesticidas que podem ser comercializados legalmente no Brasil”, diz o texto.

     

    Impacto nas abelhas

    Um estudo realizado por biólogos brasileiros sugere que o efeito dos agrotóxicos sobre as abelhas pode ser maior do que se imagina. Mesmo quando usado em doses consideradas não letais, um inseticida encurtou o tempo de vida dos insetos em até 50%. Além disso, os pesquisadores observaram que uma substância fungicida considerada inofensiva para abelhas alterou o comportamento das operárias, tornando-as letárgicas – fato que pode comprometer o funcionamento de toda a colônia.

    É um fato conhecido que diversas espécies de abelhas estão desaparecendo em todo o mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, o fenômeno tem sido observado desde o ano 2000. No Brasil, desde pelo menos 2005. No Rio Grande do Sul, entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, foi registrada a perda de aproximadamente 5 mil colmeias – algo equivalente a 400 milhões de abelhas.

    E não estão desaparecendo apenas os indivíduos da espécie Apis mellifera, abelha de origem europeia e principal responsável pela produção comercial de mel. Nas matas brasileiras, há centenas de espécies selvagens possivelmente afetadas. O impacto econômico previsto é imenso, pois grande parte da agricultura depende do trabalho de polinização realizado por esses insetos. É o caso, por exemplo, de todas as frutas comestíveis.

    A causa do sumiço repentino em massa também já é conhecida: a aplicação indevida e indiscriminada de defensivos agrícolas. Compostos químicos como inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas contaminam as abelhas que saem da colônia em busca de pólen e acabam atingindo toda a colmeia. Uma vez dentro da colônia, tais compostos são ingeridos pelas larvas, comprometendo sua longevidade e o funcionamento da colônia como um todo.

  • Professora argentina é indenizada após adoecer por pulverização de agrotóxicos

    Professora argentina é indenizada após adoecer por pulverização de agrotóxicos

    A Justiça do Trabalho da cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos, na Argentina, proferiu uma decisão a favor da professora Estela Lemes, reconhecendo que a pulverização de agrotóxicos próximo à escola rural Bartolito Mitre, em Costa Uruguai Sur, a adoeceu.

    O caso é mais um reconhecimento contundente da nocividade dos agrotóxicos à saúde humana. A Câmara do Trabalho da cidade ordenou que o Instituto Autárquico Provincial del Seguro de Entre Ríos indenizasse a profissional e se encarregasse dos custos de seu tratamento.

    Segundo a agência de notícias Tierra Viva, aviões de fumigação com pesticidas começaram a sobrevoar a escola Bartolito Mitre em 2006. Quatro anos depois, após filmar um vídeo mostrando que agrotóxicos eram pulverizados a pouco metros da escola e durante manobras deixavam cair veneno em áreas onde estavam alunos e professores, a professora ingressou com uma ação judicial.

    Ela passou anos denunciando a prática à Secretaria Municipal de Meio Ambiente e enfrentou questionamentos da Aseguradora de Riesgos del Trabajo (ART), o equivalente ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) no Brasil.

    Uma década após a primeira pulverização, um exame de sangue constatou que Lemes tinha glifosato em seu sangue. Hoje, a professora convive com atrofia muscular e danos neurológicos.

    “Eu lutei por mim, por minha doença e por meus filhos, para que se soubesse que os agrotóxicos te deixam doente e te matam. Quando falam de ‘agroquímicos’ ou ‘pesticidas’, eu lhes digo: ‘agroquímicos tóxicos’. Eu sei que eles entram no corpo e te deixam doente”, assegurou Lemes, em entrevista à Rádio Nacional Gualeguaychú.

    O caso de Estela Lemes cria um precedente judicial para a luta contra os agroquímicos tóxicos na província de Entre Ríos, que já tem uma longa luta contra a pulverização agroquímica.

    O glifosato, inclusive, havia sido proibido no município de Gualeguaychú. Entretanto, o governador Gustavo Bordet derrubou uma decisão histórica do Supremo Tribunal Provincial por meio de um decreto e autorizou a manutenção da pulverização agroquímica em áreas escolares a apenas 100 metros de distância por terra, e a 500 metros de distância caso a aplicação ocorra pelo ar. Já uma organização dos vizinhos defendia que a proibição fosse de 1.000 metros de distância por terra e 3.000 metros de distância pelo ar.

    “A decisão reconheceu que fui pulverizada enquanto estava trabalhando. Os agrotóxicos deixam você doente e o matam. A justiça foi feita”, disse Lemes.

     

    Fonte: Brasil de Fato 

  • Unicamp suspende pesquisa que poderia liberar agrotóxico letal

    Unicamp suspende pesquisa que poderia liberar agrotóxico letal

    Após revelações em matéria da Repórter Brasil e da Agência Pública, o comitê de Ética da Unicamp suspendeu pesquisa conduzida em laboratório da Faculdade de Ciências Farmacêuticas que estava sendo usada para liberar o uso de agrotóxico letal. A reportagem denunciou que, antes mesmo de ser concluída, a pesquisa era peça central do lobby para reverter a proibição do paraquate, classificado como “extremamente tóxico” e um dos agrotóxicos mais usados no Brasil. O produto está com data marcada para ser banido em setembro deste ano, segundo decisão tomada pela Anvisa em 2017 com base em evidências de que ele pode gerar mutações genéticas e a doença de Parkinson nos trabalhadores rurais.

    A poucos meses da proibição, porém, o lobby pressionava a Anvisa pela reversão do veto usando como argumento um controverso estudo financiado pela Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja) – que representa o setor que mais usa o paraquate. A pesquisa determinaria se o produto pode ser encontrado na urina dos trabalhadores que o aplicam dentro de tratores de cabine fechada no Mato Grosso. Entre as muitas falhas apontadas na metodologia, ela não incluiu outras pessoas que também são expostas ao produto, como os trabalhadores que fazem o transporte e o tratamento dos grãos, as comunidades do entorno e os trabalhadores de fazendas onde não há tratores com cabine fechada.

    Revelando seu entusiasmo pela segurança do uso do agrotóxico, as declarações dadas pelo médico e professor aposentado da Unicamp ngelo Trapé para a reportagem geraram questionamentos entre pesquisadores da instituição. “O contato do trabalhador que faz a pulverização é nulo. É tudo mecanizado, trator fechado, vedado”, afirmou Trapé, que questionou a proibição do produto antes mesmo de concluir a sua pesquisa.

    Dois dias após a publicação da reportagem, o departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, onde Trapé foi professor, publicou uma nota de repúdio afirmando que já foi “bem estabelecida a associação do agrotóxico com diversas doenças relacionadas ao trabalho como fibrose pulmonar, insuficiência renal, Doença de Parkinson e danos genéticos”. A nota manifesta ainda “indignação” pelo uso da pesquisa para reverter a proibição do paraquate e afirma que a citação de Trapé como professor aposentado da universidade caracteriza “abuso do uso de imagem da Unicamp, em busca de algum grau de legitimidade para estudos que claramente colidem com os interesses da saúde coletiva”.

    A nota foi posteriormente endossada pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas, onde fica o laboratório em que a pesquisa estava sendo conduzida. O texto reforça a preocupação da instituição com o fato de que o “paraquate, comprovadamente, causa graves intoxicações ocupacionais e acidentais aos trabalhadores rurais”.

    Por fim, o Comitê de Ética da universidade colocou o assunto em pauta e decidiu, nesta quarta dia 29, pela suspensão da autorização da pesquisa em questão “por haver indícios de omissão de informações por parte dos envolvidos”. O órgão não detalhou quais são essas informações (leia nota completa).

    A reportagem apurou que uma pesquisa parecida com a de Trapé fora reprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) no fim de 2019, meses antes da submissão da pesquisa à Unicamp. A versão rejeitada pela Conep continha informações que foram cortadas da versão apresentada à universidade paulista.

    A rejeição da pesquisa pela Conep foi pauta de reunião que ocorreu na Anvisa em 23 de outubro, quando o coordenador geral da comissão Jorge Venâncio foi chamado pelo diretor Renato Porto para esclarecer o motivo da reprovação. A intenção do encontro era entender quais as falhas da pesquisa para que um outro projeto pudesse ser apresentado.

    No dia 5 de novembro, o mesmo diretor da agência reguladora recebeu outro membro do Conep para discutir a pesquisa. Desta vez, também participaram do encontro representantes da Frente Parlamentar Agropecuária, a bancada ruralista.

    Pouco mais de um mês depois, em 11 de dezembro, a pesquisa de Angelo Trapé era aprovada pelo Comitê de Ética da Unicamp. “Imagino que eles não conseguiram resolver os problemas apontados, então fizeram um projeto mais simples da mesma pesquisa para passar na Unicamp”, afirma uma fonte que teve acesso às informações sobre todo o processo de reprovação na Conep.

    Trapé confirmou que sua pesquisa é uma versão de um projeto anteriormente rejeitado pela Conep. Ainda durante a apuração da matéria sobre o lobby, ele explicou à reportagem que a Aprosoja lhe procurou no fim do ano passado, depois que a pesquisa fora rejeitada pela Conep. A intenção era de que ele tentasse aprovar o projeto pela Unicamp, o que de fato ele conseguiu.

    Após a publicação da matéria, o Comitê de Ética da Unicamp entrou em contato com a Conep e obteve os motivos pelos quais a pesquisa fora reprovada. Essas informações não foram reveladas nem pela Conep ou pela Unicamp. Pesquisadores que tiveram acesso à pesquisa e que não podem se identificar afirmam que são muitas as falhas, elas vão desde a metodologia até os procedimentos de segurança com as amostras colhidas.

    Procurados pela reportagem, Angelo Trapé não respondeu ao novo contato. A Aprosoja manteve a mesma posição manifestada anteriormente e afirmou que não vai se pronunciar sobre a suspensão da pesquisa que financiou.

     

    FONTE: Repórter Brasil e Por Trás do Alimento

  • Amazônia tem ‘três cidades de São Paulo’ desmatadas e risco de queimadas

    Amazônia tem ‘três cidades de São Paulo’ desmatadas e risco de queimadas

    Se tudo virar fumaça, região pode enfrentar estado de calamidade pública na saúde devido à sobreposição de novas doenças respiratórias com a pandemia da covid-19, alerta Ipam

     

    Nota técnica divulgada nesta segunda-feira (8) pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) alerta para o risco de uma “tempestade perfeita” que pode atingir a Amazônia brasileira a partir deste mês. A preocupação leva em conta uma eventual interação do aumento do desmatamento – seguido da chamada “temporada do fogo” de queimadas – com a pandemia do novo coronavírus. A combinação desses fatores terá potencial de provocar mais mortes na região, de acordo com relatório.

    A nota é assinada por pesquisadores do Ipam, da Universidade Federal do Acre (Ufac) e da Universidade de São Paulo (USP). Assinam o estudo Paulo Moutinho, Ane Alencara, Ludmila Rattisa, Vera Arruda, Isabel Castro e Paulo Artaxo. Segundo eles, o período de seca e queimadas previsto a partir deste mês até agosto “pode ser igual ou mais intenso do que aquele que a atingiu a região em 2019“.

    Com base em dados do sistema Deter do Instituto de Pesquisas Espaciais – que vêm desde o ano passado, mostrando que o desmatamento cresce em níveis alarmantes no bioma –, o Ipam identificou um perímetro de 4,5 mil quilômetros quadrados na Amazônia que está passível de ser queimado. Toda essa área equivale a três vezes o município de São Paulo. E é resultado do que foi desmatado no final de 2019, e não queimou, com o que foi devastado neste início de ano.

    “Há uma grande extensão de terreno na Amazônia coberta de árvores mortas e secas, à espera da estiagem que se aproxima para ser queimada”, indica a nota técnica.

     

    Se virar fumaça

    Quatro estados concentram 88% da área desmatada e que corre risco da queima. O Pará lidera com 42% desse total, seguido por Mato Grosso (23%), Rondônia (13%) e Amazonas (10%). E a categoria fundiária que poderá ser mais atingida pelas chamas são as florestas públicas estaduais e federais sem destinação. Ou seja, áreas sem informação cadastral, que representam 29% desse terreno. Assim como imóveis rurais, com 26%, e assentamentos, com outros 25%.

    Há anos os pesquisadores de todo país alertam para o desmatamento como um fator de impulsionamento às chamas. Além de advertir contra o uso do período de estiagem pela própria ação humana. De quem faz das queimadas para “limpar o terreno” depois da derrubada das árvores. Cujo objetivo é de utilizar a terra para atividades econômicas como o cultivo agrícola e pastagem para gado.

    Diante disso, o risco é que esta estação de seca seja marcada por grandes incêndios. No mínimo comparáveis como aqueles ocorridos em 2019 – que chocou o mundo pela gravidade histórica. “Se assim for, haverá uma produção de enormes quantidades de fumaça carregadas com particulados finos afetando a saúde das pessoas”, relaciona os pesquisadores do Ipam. “Todo ano, na Amazônia, essa fumaça das queimadas leva uma legião de pessoas aos hospitais à procura de tratamento por conta de problemas respiratórios. A suspensão de particulados finos afeta a saúde principalmente de crianças e idosos que vivem na região.”

     

    Saúde pública e a covid-19

    O relatório aponta que já ano passado, com as queimadas recordes, os municípios mais atingidos, como Rio Branco, entre outras cidades do Acre, apresentaram o ar 53% mais poluído, em média, do que em 2018.

    A preocupação com a saúde pública fica ainda maior com devido à pandemia da covid-19, como explica o Ipam. Principalmente na Amazônia, que já levanta duas tendências preocupantes, na avaliação dos pesquisadores. O avanço do novo coronavírus entre as populações indígenas e a fase de “interiorização” da infecção em cidades com uma frágil estrutura de saúde pública.

    “Aumentos extras da demanda por tratamentos de doenças respiratórias podem colocar uma pressão sem precedentes sobre o sistema de saúde da região”, afirma a nota técnica. A região Norte do país, até o final de maio, já registrava a maior taxa de incidência da doença (584,6) e de mortalidade (30,9) por 100 mil habitantes.

    A nota técnica se encerra com uma série de recomendações. E destaca que é urgente que os governos municipais, estaduais e federal coordene ações. O objetivo é evitar que essa imensa área seja consumida pelas chamas e traga sérios risco de agravar a saúde da população local.

     

    Fonte: RBA

    Foto: Doug Morton/Nasa